Arte com Lacan: a escuta como dobra da palavra
- Fabricio Vijales
- há 6 dias
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Crédito: Fotografia da autora, realizada na exposição “Lacan, quando a arte encontra a psicanálise”, Centre Pompidou, Paris.
Há formas que não se deixam reduzir a dois lados. O que parece fora retorna como dentro. O que parece distante toca o ponto mais íntimo.
A escuta lacaniana parte dessa dobra.
Na psicanálise, a palavra não é apenas meio de comunicação. Ela é lugar de inscrição. Ao falar, o sujeito não apenas relata acontecimentos — ele se implica, se revela, tropeça, se contradiz. A fala diz mais do que pretende dizer.
A escuta, então, não se orienta apenas pelo conteúdo do sofrimento, mas pelos seus contornos: o que se repete, o que retorna, o que insiste apesar da vontade consciente de mudar.
Não se trata de oferecer respostas prontas. A psicanálise não entrega manuais. Ela sustenta um espaço onde a palavra possa fazer seu trabalho.
Quando a ansiedade fala
Alguém diz:“Eu preciso dar conta de tudo.”
Essa frase, aparentemente simples, carrega um mundo.
Dar conta de quê? Para quem? Desde quando isso se tornou imperativo?
A ansiedade não é apenas excesso de tarefas. Muitas vezes, é o efeito de uma exigência que atravessa o sujeito. Quando essa exigência começa a ser escutada — e não apenas combatida — algo pode se deslocar.
A palavra, ao ser recolocada em cena, abre outra direção.
Quando o amor se repete
Outra pessoa afirma:
“Eu sempre escolho pessoas que me machucam.”
O “sempre” ecoa. Ele aponta para repetição.
A escuta não acusa, não moraliza, não aconselha.
Ela pergunta: que cena retorna? Que lugar você ocupa nessa história? O que, sem saber, você reencontra?
Não se trata de culpar o sujeito, mas de permitir que ele reconheça sua posição na trama que se repete.
É nesse ponto que a análise começa a operar.
A implicação
A psicanálise lacaniana distingue-se por essa aposta: o sujeito está implicado em sua própria palavra.
Isso não significa que ele seja culpado por seu sofrimento. Significa que há algo de sua participação naquilo que o atravessa. Quando essa participação se torna audível, a relação com o sintoma pode mudar.
A transformação, aqui, não é espetáculo nem promessa.
É deslocamento.
Pequeno às vezes.
Silencioso muitas vezes. Mas estrutural.
Um espaço para falar
Sustento esse trabalho clínico em consultório, em Novo Hamburgo, e também na modalidade online. Adultos, adolescentes e crianças encontram aqui um espaço onde a fala pode circular sem pressa, sem julgamento, sem roteiro prévio.
A psicanálise não oferece garantias.
Oferece escuta.
E, por vezes, isso é o que permite que o dentro e o fora deixem de ser opostos — e se tornem continuidade.





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