Publicação: Revista Correio APPOA: Vol. 13 nº 1 janeiro/2026 Escritas da transmissão
- Fabricio Vijales
- 12 de jan.
- 9 min de leitura

Uma nota preliminar, dedicada a destacar o amor de Freud.
Há um instante quase sem vestígio, em que Freud encontra Lou Andreas-Salomé em Weimar, no ano de 1911. Nada se sabe ao certo sobre o conteúdo daquela conversa, mas pressente-se nela a ressonância de uma escuta mútua. Dois que sabiam ler o invisível. Anos mais tarde, Lou escreve, e se faz testemunho: “A sua teoria nos oferece, com sua imensa e intrincada construção, algo mais do que uma estrutura científica: ela nos restitui o movimento da alma humana” (Andreas-Salomé, 2001, p.11).
Foi proposto, para o ano de 2025, pensar a letra como operador teórico e o litoral para abordar o (im)possível do feminino. Com o horizonte na leitura transliterada, discutimos a escrita de mulheres como gesto político e clínico, em sua não universalidade, onde bordas e margens se tornam lugar de inscrição e de furo no saber.
A leitura transliterada de Jean Allouch (1995) é retomada como passagem e deslocamento: o conceito de transliteração amplia-se para pensar a montagem, em que a escrita deixa de ser figura ou imagem para tornar-se operação de linguagem, se firmando como campo de investigação.
Nessa visada, este texto propõe a minha leitura da ementa do grupo para pensar o mosaico não como técnica de coleta, mas como posição de quem pesquisa frente ao impossível do saber, um dispositivo de orientação, um modo de interlocução, de pesquisa em fragmento, apresentação e de montagem dos trabalhos.
No primeiro dia em que nos reunimos, foi feito a cada participante o convite para falar um pouco sobre si e sobre as leituras, falar mais do percurso como uma breve forma de apresentação. A colega Isadora Machado, que conduzia o encontro juntamente com Carla Sei, destacou: “Aos poucos, vamos conhecendo as pesquisas de vocês!”.
Ao final do semestre, surgiu a proposta de escrita, com tema livre. Se, de início, o meu objeto se concentrou na experiência do Grupo, principalmente na ementa, em um segundo momento, por curiosidade, ampliei o campo para o Correio da APPOA, onde realizei uma busca pela palavra “mosaico” a fim de seguir o rastro da maneira pela qual a imagem poderia se apresentar em outros textos.
Inicialmente, fiquei pensando sobre a complexa montagem dos trabalhos. A própria dinâmica estabelecida me lembrou a aplicação de fragmentos sobre uma superfície: uma sobreposição assimétrica de textos, imagens, memórias, que somadas, remetiam fortemente ao mosaico.
Pensei que a proposta do mosaico é um modo ético de investigação capaz de comportar outros léxicos, preservando a subjetividade e sustentando o furo que a letra não preenche (APPOA, 2025).
Elementos, muitas vezes dispersos ou até mesmo estranhos para mim, e que só adquiriram sentido em um tempo que não é cronológico, mas lógico, como o tempo do inconsciente, que se revela sempre a posteriori, quando algo se liga e retorna sob nova forma.
Ou seja, o mosaico é um dispositivo que sustenta a enunciação pela construção de uma montagem que se organiza “a partir de um furo e, justamente por isso, configura-se como criação ex nihilo. Isto é, do nada” (APPOA, 2025).
Trata-se de uma forma que marca a passagem de uma escrita entendida como comentário para um trabalho de escrever implicado, que se aproxima da estrutura de ato. De tal forma que cada gesto inscreve o sujeito e convoca a ética da psicanálise.
O inconsciente se apresenta como superfície de inscrição, como formulado por Lacan ao distinguir enunciado e enunciação no Seminário 11: “o sujeito não é aquilo que fala, mas aquilo que, no discurso, se trai” (Lacan, 1964/1985). É nesse ponto – onde a palavra toca o real – que o sujeito se expõe ao risco de se escrever.
Dessa forma a investigação é orientada não pela ilusão de objetividade, mas pelo reconhecimento do mito da neutralidade (Kuhn, 2000; Feyerabend, 2007) e pela aposta na presença do sujeito como operador de um saber que falha. Ou seja, não domina, se implica, acompanha e pensa eticamente.
Com minha experiência de escrita compartilhada com o grupo pude reconhecer também a potência de uma perspectiva poética e, por ocasião de nossas trocas, foi possível incluir no meu trabalho o que propõe Luiz Antônio Simas, no livro Encantamento: sobre a política de vida: “uma política de vida implica uma prática de linguagem que poetiza o mundo em palavras, gestos, saberes” (Simas, 2020).
É possível perceber que não se trata de uma mera alegoria estética, mas de uma tática de resistência a modos de existência expulsos pelo modelo racionalista e colonial, compreendida não como algo regido pelo cânone literário, mas como um fazer criativo sustentado por falhas (Oliveira, 2020).
Para reforçar a proposta do fragmento, Simas estabelece uma relação entre encantamento e o cintilar que a montagem pode fazer surgir, o encantamento é uma política do sensível. Encantamento não é um delírio nem recusa da razão, mas recusa de uma razão única. O encantamento pode ser compreendido como uma forma de saber que desloca o olhar racional para dimensões simbólicas e invisíveis da vida.
O mosaico faz desse cintilar o efeito surpresa em que uma imagem se monta não toda pelo trabalho e o constante gesto de reconhecer, algo que convoca. Encontrei referência importante na Mosaic Approach, abordagem proposta pela professora inglesa Alison Clark, da Unidade de Investigação Thomas Coram, no Instituto de Educação da Universidade de Londres.
Como referência, destaco igualmente o trabalho de Bruna Ribeiro (2021), que evidencia o uso de fragmentos multimodais de Alison. Textos, sons e imagens, como vias legítimas de produção de um saber não todo. No trabalho com crianças a abordagem em mosaico, pequenas falas, gestos, fotografias, desenhos, tornam-se centrais na produção de sentido.
Essa perspectiva se sustenta justamente na justaposição dos materiais como forma de construção de saber, apostando na incompletude e na pluralidade como potências do processo investigativo, em vez de buscar um fechamento ou uma totalidade explicativa (Ribeiro, 2021, p. 89).
Seguindo o curso da minha associação, realizei um deslocamento estabelecendo uma relação entre técnica, criação e arte que o próprio significante comporta. Os meios de produção, instrumentos e seus desdobramentos remetem à metáfora visual da justaposição de azulejos (tiles). Pedaços heterogêneos que, juntos, não compõem uma unidade, mas sustentam uma forma em tensão.
O movimento de composição consiste em acolher a montagem de materiais heterogêneos, uma citação, uma imagem, uma nota de escuta, palavras soltas, que se articulam. A produção de resultados se dá, assim, por restos e reverberações. Bordaduras que não fecham o sentido.
Nesse entrever, o olhar se desloca. O mosaico passa para o campo da imagem. A escrita, então, se aproxima do trabalho com a luz, onde cada fragmento reflete o que escapa.
Há afinidade próxima com a arte bizantina, cujos fragmentos não buscavam a perspectiva realista, mas a luminosidade que emerge das frestas. Avanço no desenvolvimento da ideia de trabalho com imagens que é possível pela leitura preciosa de Didi-Huberman (2011) sobre o que vemos e o que nos olha, “a significação não se impõe, ela cintila”, e é justamente no cintilar que algo do real pode surgir.
Uma aposta inspirada no trabalho com tiles multimodais, passa ao gesto de nomear os procedimentos por meio da técnica de montagem por tesselas. Pedaços irregulares aplicados sobre uma camada de argamassa que, sem formar uma imagem única, buscam no reflexo da luz sua potência de sentido. Essa imprecisão das bordas e justaposições propõe uma perspectiva eticamente fecunda.
A produção dos trabalhos no grupo evidenciou que a circulação da palavra por meio da abordagem em mosaico não se restringe a uma metáfora estética: ela se apresenta como movimento discursivo que atravessa o sujeito, o corpo, a memória e a produção textual, quebrando o paradigma universalizante na tentativa de dar lugar ao indizível.
A orientação literário-teórica-metodológica presente na produção do grupo compõe, em si, uma prática discursiva que reverbera essa perspectiva: escrita implicada, montagem heterogênea e trânsito entre clínica, literatura, política e arte. O roteiro de trabalho é, ele mesmo, um arquivo-mosaico, espaço em que vozes e estilos se sobrepõem sem a pretensão de se uniformizar, acolhendo a singularidade como potência.
Na minha busca pelo Correio APPOA, pude perceber que alguns textos se organizam sob a abordagem do mosaico, ainda que nem sempre propositalmente quanto à escolha ou quanto aos efeitos que a palavra produz. Registro fragmentário, que opera como uma tentativa de nomear o indizível.
Essa constatação decorre de um artigo publicado em 2015, no qual é apresentada uma reflexão sobre transferência, temporalidade, imagens dialéticas e memória por vir.
Mattos (2015) sustenta que as imagens dialéticas, na esteira de Benjamin, tornam visível o eixo temporal da verdade ao fazerem passado e presente se encontrarem em lampejo, formando constelações; e que, no percurso analítico, a aparição dessas imagens pode ser pensada pelas trilhas do princípio surrealista da montagem, isto é, pela reunião de fragmentos heterogêneos como mosaico/constelação, em proximidade com a lógica da associação livre.
Nesse sentido, conforme destaca Buck-Morss, “o princípio da construção é o da montagem, onde os elementos ideacionais da imagem permanecem irreconciliados e não fundidos em uma só ‘perspectiva harmonizadora’” (2002, p. 97).
Utilizando-se do mesmo léxico, outro texto produzido evoca a força imagética do memorial da Boate Kiss: “Na fachada do casarão, um mosaico de fotografias borradas, um imenso muro monocromático recheado de imagens poderosamente intensas” (Pereira, Andrade e Pereira, 2024). Penso no quanto é interessante como a figura do mosaico, diante do real, interpela uma possibilidade de simbolização por meio da montagem de memórias tão dolorosas.
Destaco apenas mais um texto com referência direta.
Segundo o editorial do Correio da APPOA (2025), nas fantasias criativas estão os resíduos arcaicos, pedaços mnêmicos que formam um mosaico, partes de um texto pulsional que o escritor/poeta movimenta ao submeter-se ao trabalho de criação.
Encontrei, na verdade, onze ocorrências diretas da palavra mosaico. Possivelmente outros textos tragam alguma referência indireta ou tenham recorrido a essa referência ou modo de montagem.
O termo mosaico pode surgir de diferentes formas e por isso mesmo resistir a qualquer definição fixa. Palavra acessada desde a metáfora da enfermidade às lembranças partilhadas; da representação simbólica à montagem fragmentária; do dispositivo coletivo à singularidade; da evocação da memória à montagem pulsional. Um modo de articular o que é disperso, incompleto e sustenta o fragmento sem dissolvê-lo na unidade.
Ao longo das recorrências analisadas não encontrei léxicos distintos, mas um mesmo léxico que faz surgir novos registros, que se desdobra em formas variadas, diferentes e inéditas de abordagem. Chave de leitura que permitiu dialogar com uma possível forma de investigação. O reconhecimento da escrita por fragmentos ultrapassa a função estética ou metafórica e opera como um dispositivo.
O mosaico, tal como no trencadís de Gaudí, em que cacos e sobras dão corpo a superfícies luminosas, mostra como a pesquisa em fragmentos pode se converter em potência. A Basílica da Sagrada Família, iniciada em 1882 e ainda em construção, permanece como emblema dessa lógica: o tempo também se monta em mosaico, feito de cacos justapostos, restos que não cessam de produzir sentido (Bassegoda Nonell, 2000).
Ocupar-se do mosaico como um campo ético de pesquisa em psicanálise é afirmar uma posição singular, em que só há saber quando a escrita se sustenta em torno do vazio, aquilo que Lacan nomeia Das Ding (Lacan, 1969–70/1988), núcleo em torno do qual o impossível de simbolizar persiste como motor da criação.
Dessa forma, o mosaico se afirma não como método, mas como orientação ética para a escrita e a pesquisa em psicanálise.
Referências bibliográficas
ALLOUCH, Jean. A clínica do escrito. Rio de Janeiro: Companhia de Freud, 1995.
ANDREAS-SALOMÉ, Lou. Carta aberta a Freud. São Paulo: Landy Editora, 2001. (Original publicado em 1931).
APPOA – Associação Psicanalítica de Porto Alegre. Ementa do grupo de estudos Psicanálise e Literatura, segundo semestre de 2025. Porto Alegre: APPOA, 2025.
BASSEGODA NONELL, Joan. Gaudí: o espaço, a luz e o equilíbrio. Barcelona: Ediciones Polígrafa, 2000.
CLARK, Alison; MOSS, Peter. Listening to young children: the mosaic approach. London: National Children’s Bureau for the Joseph Rowntree Foundation, 2001.
CORREIO DA APPOA. Editorial: Relendo Freud: “O poeta e o fantasiar” (1908). Correio da APPOA, Porto Alegre, v. 12, n. 6, jul. 2025.
DIDI-HUBERMAN, Georges. O que vemos, o que nos olha. Trad. Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 2011.
FEYERABEND, Paul. Contra o método. São Paulo: Editora Unesp, 2007.
KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 7. ed. São Paulo: Perspectiva, 2000.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.
LACAN, Jacques. O seminário, livro 7: a ética da psicanálise (1959–1960). Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988.
MATTOS, Manuela Sampaio de. Transferência como limiar: temporalidade, imagens dialéticas e memória por vir. Correio da APPOA, Porto Alegre, v. 2, n. 4, jun. 2015.
OLIVEIRA, Mayllon Lyggon de Sousa. Panorama: uma abordagem da poética do encantamento em Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino. Panorama, Goiânia, v. 10, n. 2, p. 49-50, jul./dez. 2020.
PEREIRA, Luís Henrique Ramalho; ANDRADE, Ariádini de; PEREIRA, Vanessa Oliveira Solis. Boate Kiss, luto e memória: o lugar da psicanálise frente a um trauma coletivo. Correio da APPOA, Porto Alegre, v. 11, n. 1, jan. 2024.
RIBEIRO, Bruna. A escuta como matéria-prima das pedagogias participativas: a construção de saberes praxiológicos de uma pedagogia que escuta. 2021. Tese (Doutorado em Educação) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2021.
SIMAS, Luiz Antônio; RUFINO, Luiz. Encantamento: sobre política de vida. Rio de Janeiro: Mórula Editorial, 2020.
Publicado em: Correio APPOA: Vol. 13 nº 1 janeiro/2026 Escritas da transmissão



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